O PODER DA REESCRITA

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E então você já criou um conceito, uma estrutura, fez uma storyline, um argumento, uma escaleta e escreveu o roteiro. Pronto, sua história está terminada.

Será mesmo?

Talvez muitos não imaginem que, quando você terminou tudo isso, apenas uma parte do processo de escrita está completa. A reescrita, revisão, a mudança e a percepção com um outro olhar são essenciais para a evolução da sua história. Há quem diga que até aqui você só fez metade do trabalho e a outra metade é a reescrita. Não chego a tal extremo, porém, acredito que a reescrita é uma parte tão importante quanto as outras para que a sua história amadureça.

Quando você termina um texto e passa por ele de novo, você consegue encontrar detalhes, peças faltando, diálogos sobrando, descrição demais, entre outras coisas. Ao revisitar sua escrita você aprende com os erros, percebe o que não deu certo e o mais importante: tem a chance de corrigi-los enquanto ainda há tempo.

Não estou falando apenas sobre erros gramaticais ou de digitação, falo de incoerências narrativas, falhas na construção de arcos de personagens, etc. Questões técnicas mais formais devem ser corrigidas, é claro, mas apenas uma releitura simples dará conta dessa parte.

Até aqui falamos sobre a importância e a função do assunto em questão. Mas como reescrever uma história? Aqui vão algumas dicas que podem ser úteis para o seu processo. Apenas de não serem a única forma de se fazer, são técnicas que dão certo com algumas pessoas (inclusive eu), mas você pode (e deve) encontrar a sua própria maneira de lidar com a reescrita.

Dê um tempo para sua história!

Cena do filme Meia Noite Em Paris, de Woody Allen

Quando você passa dias, semanas, meses trabalhando na mesma coisa, sua cabeça está totalmente ligada naquele universo. Por isso, talvez o melhor momento para revisitar seu texto seja depois de alguns dias ou algumas semanas. Sua cabeça já vai estar descansada e a sua ligação com a história se torna muito diferente. Você enxerga o universo criado por você com os outros olhos e isso é extremamente importante para reconhecer onde você pode ter exagerado, deixado faltar ou ter cometido erros.

Experimente fazer isso. É uma chance de enxergar sua história “de fora”, de um outro ângulo, outro ponto de vista. Essa técnica importante e muitas vezes necessária para que o escritor se desapegue de certos pontos e se concentre no mais importante, que é contar uma boa história.

Receber feedback é importante

Cena do filme Capote, com roteiro de Dan Futterman. Adaptado do livro original A Sangue Frio, de Truman Capote

Você pode ler, esperar um tempo, ler novamente, mas sempre existirão pontos de vista que só vão ser revelados através dos olhos de outras pessoas. Por isso é importante deixar que leiam sua história e deem opiniões que ajudam a melhorar a narrativa. Isso não significa postar seu roteiro em algum lugar na internet e deixar que todo mundo dê qualquer opinião sobre o caso.

Procure pessoas específicas, de confiança, que você sabe que podem contribuir para a evolução do seu roteiro. É claro que é sempre bom ter a opinião de outros roteiristas, mas um olhar de alguém que não entende de estrutura ou qualquer técnica, pode ser surpreendentemente bem-vindo.

Outra ação importante que você pode tomar é reunir amigos, conhecidos e propor uma leitura aberta. Convide-os para uma tarde bacana, na sala de sua casa (sem compromisso formal) e leia a sua obra. Lógico: alerte-os que não está acabada e que você precisa de opiniões. É interessante você convidar não apenas pessoas que dominem a linguagem audiovisual, mas também aqueles que podem trazer uma visão do público. Sua amiga que gosta muito de cinema, seu primo que é viciado em séries, seu padrinho que é publicitário.

Uma grande dica é se desapegar, pode ser que aquele personagem que você tanto gosta esteja desagradando e atrapalhando a história para todos que leram. Se esse for o caso, é bom rever o que está dando errado. Não se apegue aos elementos, foque na evolução da sua história.

Quando parar?

Cena de On The Road, com roteiro adaptado de José Rivera, da obra homônima de Jack Kerouac

Há uma grande dúvida: de quantos tratamentos um roteiro precisa?

Como em tudo que envolve roteiro, não existem regras específicas nem fórmulas milagrosas. Porém, existem caminhos que você pode seguir e que dão certo muitas vezes. Já vi roteiros de longas com mais de 12 tratamentos e alguns com apenas 5.

Isso varia de roteirista para roteirista. Não é questão de ser perfeccionista, apesar de alguns quererem ser muitas vezes. A grande questão é que, como roteirista, você é o deus da sua história, então ninguém melhor do que você para saber as necessidades daquela narrativa.

A verdade é que você sempre vai achar que dá para melhorar, sempre vai encontrar alguma brecha que poderia ter preenchido com algo fantástico, mesmo depois de um roteiro filmado, mas você tem que saber a hora de parar. Existe o momento em que você precisa dizer “chega” para si mesmo, e é normalmente quando você sente que a história está madura o suficiente para ser filmada.

 

Texto de Tom Freitas

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