COMO MOVIMENTAR A SUA HISTÓRIA?

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É bem possível que, ao escrever, o roteirista se pergunte se a história está monótona ou desinteressante. Talvez surja a dúvida: a história está andando ou não? Para evitar essa angústia, é importante organizar muito bem a narrativa antes de partir para o roteiro, realmente conhecer a sua história, saber para onde ela caminha e quem é o personagem que você está criando.

E como é possível conhecer melhor esse personagem? Uma boa maneira de construí-lo com profundidade é escrevendo um texto (não precisa ser muito grande) sobre o passado dele, sua família, amigos, trabalho, o que ele almeja, quais são os seus gostos, com quem se relaciona – uma biografia mesmo. Mesmo que você não mostre tudo isso no roteiro, essa etapa pode lhe dar ideias de subtexto ou até de uma cena que nem existiria se você não conhecesse tão bem o seu personagem.

Além disso, organize os acontecimentos do seu filme ou episódio de série em escaletas. Elaborar uma sinopse e um argumento também lhe ajudará a ter uma visão de como conduzir a sua narrativa – e dar atenção a aspectos poéticos da sua história que não estarão no roteiro, já que devemos incluir nele apenas o que pode ser filmado.

Nessa  etapa, quando você ainda está estruturando a sua narrativa, você pode elencar os acontecimentos do seu filme de maneira que as emoções transitem entre dois polos: o positivo e o negativo. O que eu quero dizer com isso? Que os acontecimentos devem transmitir boas sensações (polo positivo) e depois serem encaminhados a passar emoções ruins (polo negativo). Isso é o que chamamos de troca de valor: quando a história se movimenta de um estado positivo para o estado negativo (ou vice-versa). Isso funciona muito no Marketing Narrativo.

Consegue perceber que os acontecimentos do seu roteiro vão formando uma onda que constantemente oscila? Em um momento, as coisas estão bem; em outro, problemas surgem e tudo parece perdido; porém, uma solução aparece e os ânimos sobem; entretanto, um novo obstáculo aparece, trazendo a tristeza de novo e por aí vai. Essa oscilação irá movimentar a sua história, pois seguir a troca de valor vai fazer você pensar em mudanças dentro da sua narrativa.

Lembrando que é possível observar com mais facilidade a troca de valor em filmes com estrutura clássica, principalmente filmes de comédia. Em alguns gêneros cinematográficos como drama ou policial, talvez seja mais difícil de encontrar a troca de valor de forma mais perceptível.  Aliás, a troca de valor é algo que serve para o roteirista se guiar no momento de planejar ou escrever a sua história, não é algo para ser visto pelo espectador. É algo que fica restrito ao momento da criação e será apenas sentido por quem assiste ao seu filme ou série.

Vamos utilizar como exemplo episódio piloto da série americana Gilmore Girls. Lorelai (Lauren Graham) queria matricular a filha Rory (Alexis Bledel) em uma escola particular, Chilton, para que ela tivesse mais chances de entrar na universidade de Harvard, porém as coisas não acabaram não saindo conforme o esperado. Confira como os eventos se desenrolam:

1. Lorelai recebe uma carta informando que sua filha foi aceita na escola Chilton. Lorelai fica feliz – estamos aqui no polo positivo.

2. Porém, Lorelai descobre que já precisa pagar uma taxa de matrícula, que seria muito alta para suas condições (o mesmo serve para as mensalidades). A alegria vai embora e surge uma forte tensão. Descemos ao polo negativo.

3. Sookie (Melissa McCarthy) sugere que Lorelai fale com os pais. Lorelai não tem uma boa relação com seus pais e, a princípio, não gosta da ideia, porém percebe que não tem outra escolha. Surge uma esperança, um tanto difícil para Lorelai, mas é um caminho para que ela conseguia atingir o seu objetivo.

4. Lorelai consegue dinheiro emprestado com seus pais. Ela fica feliz novamente. Polo positivo.

5. Porém, logo vem uma condição: ela e Rory terão que jantar toda sexta-feira com seus pais. Um obstáculo inesperado puxa novamente para baixo os ânimos. Voltamos ao polo negativo.

Percebe como a troca de valor movimenta uma história? Porém, lembre que você não precisa mudar constantemente do polo positivo para o negativo ou vice-versa. Você também pode apresentar um evento feliz seguido de outro mais feliz ainda (o polo positivo se intensifica) ou um acontecimento triste, que, em seguida, complica-se e piora (nesse caso, o polo negativo se fortalece). O importante é que sua história não fique parada.

A troca de valor mantém a atenção do público. E por quê? A própria vida é formada por altos e baixos. É muito natural que as pessoas se identifiquem e se envolvam mais com uma história que apresente esse formato. Por mais que estejamos fazendo ficção, é interessante que o público tenha pontos de encontro com a realidade em qualquer história que desejamos criar.  

Quem sabe agora você pode tentar encontrar trocas de valor em algum filme ou série de TV e depois volta aqui para nos contar? Deixe o seu comentário!

*Texto de João Paulo Wandscheer

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