QUAL A LIGAÇÃO ENTRE FORMA E CONTEÚDO?

Tempo de leitura: 4 minutos

Já parou para pensar que forma e conteúdo andam juntos? Ao longo da construção de um roteiro, pensamos no que iremos contar, o que os personagens almejam, quais serão seus obstáculos, com quem se relacionam (ou não) e qual caminho eles irão trilhar. Assim como os acontecimentos, o modo em que essa história será contada também faz parte da narrativa. Entender a ligação entre forma e conteúdo é fundamental para criar uma boa história.

Cecilia Almeida Salles aponta, no livro “Gesto Inacabado”, que o conteúdo fala através da forma, que é não apenas o recipiente do conteúdo, mas também a própria essência dele. Godard, por exemplo, utilizava planos longos e fixos para transmitir a solidão dos seus personagens. A maneira de construir essas cenas não só moldavam o conteúdo, mas eram também parte dele. Se Godard trouxesse uma outra abordagem, uma forma diferente para a mensagem que pretendia passar, o resultado seria outro (se melhor ou pior, não é possível dizer, porém seria diferente).  

Reflita qual estrutura é mais adequada para a sua história. Talvez ela funcione dentro de uma estrutura clássica, talvez ela precise seguir uma linha minimalista ou então deva ser contada em moldes antiestruturais. A forma em que você irá trazer a sua história pode potencializar o impacto que você busca criar ou o sentido que você deseja transmitir, pois a forma interfere no conteúdo – e vice-versa.

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A forma pode auxiliar o roteirista a mostrar a que um filme ou uma série veio. Talvez seja possível imaginar o episódio piloto de Breaking Bad sem a cena inicial em que Walter (Bryan Cranston) foge dirigindo um RV sem calças e utilizando uma máscara de gás. Porém, o fato de o episódio iniciar in media res elevou as emoções a um nível maior. Trouxe ação, mistério e até um humor bem característico da série. Vemos aí mais um caso da interligação entre forma e conteúdo, da forma acentuando aspectos que estarão presentes não apenas no restante do episódio, mas da série.

O filme “Alabama Monroe” também não apresenta os acontecimentos da história em uma ordem cronológica. Vemos Elise (Veerle Baetens) e Didier (Johan Heldenbergh) ainda namorando, em seguida, os níveis de tensão e angústia sobem com uma cena da filha deles, Maybelle (Nell Cattrysse), doente. Logo mais, voltamos no tempo e podemos ver um momento em que os três estão felizes em família.

Caso a narrativa tivesse sido contada em ordem cronológica, certamente assistiríamos a um outro filme, talvez não do ponto de vista dos eventos, que continuariam os mesmos, mas sim das sensações e reflexões que o longa-metragem traz. A visão em relação à história seria outra. Importante destacar que aqui não me refiro à direção de um filme, mas à maneira como o roteirista encaixa as cenas, desenvolve seus atos.

Ao longo de “Alabama Monroe”, as emoções oscilam de maneira drástica. Ver uma cena de Maybelle hospitalizada e sofrendo com câncer, seguida de um momento feliz do casal no início do relacionamento torna esse momento ainda mais feliz (porém, ao mesmo tempo, provoca uma melancolia ainda maior ao pensar que aquela felicidade está prestes a ser devastada). Podemos notar que a forma influencia as emoções que o conteúdo passa e acaba conferindo uma identidade muito singular ao filme.

Conforme Cecilia Almeida Salles, não podemos entender forma e conteúdo como uma dicotomia. Esses conceitos estão conectados e são interdependentes – um interfere no outro. A autora ainda destaca que a forma também está ligada ao artista. Portanto, reflita sobre a forma que mais tem afinidade com o seu conteúdo, com as ideias, conceitos e sentimentos que você quer passar como roteirista, pois com a forma certa, seu conteúdo pode ser levado a um nível acima da média. Porém, a forma também precisa de um conteúdo consistente, elaborado por um artista que tenha consciência de todos esses processos.

*Texto de João Paulo Wandscheer

7 Comentários


  1. Muito bom, João Paulo. Forma e conteúdo são inseparáveis, já nos ensinava a poesia concreta.

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  2. Quando leio as publicações minha criatividade começa a fluir e a cada explicação se constroem histórias fascinantes em minha mente. Acompanho as publicações pois acrescentam muito ao pouco que sei.

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  3. A forma como a história é narrada é tão importante quanto seu conteúdo devido a todos esses pontos que o texto tão bem elenca.
    A maneira de se contar uma história é tão decisiva quanto a própria narrativa. Nunca tinha pensado mais profundamente nesse “mapa emocional” que o autor vai levando o leitor/expectador a percorrer. Muito bacana sua postagem. Daí eu faria uma provocação: na verdade não existiriam histórias ruins – e sim histórias com forma mal escolhidas?
    Um grande abraço e até a próxima.
    ; )

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    1. olá, acredito que existem inúmeros fatores para uma história não ter funcionado, assim como também existem muitos para ela, de fato, funcionar. a forma seria um deles 🙂

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  4. Legal, João.
    Concordo contigo.
    Você seria capaz de citar uma história que não funcionou, mas que alterando a forma de contá-la poderia ficar bem feita?

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    1. olá, acho difícil responder essa pergunta, pois uma história que pra mim não funcionou, pode ter funcionado para o autor. Cada roteirista tem um estilo, assim como cada espectador tem as suas preferências 🙂 um exemplo que talvez eu poderia citar é um documentário. Dependendo da montagem, da forma como aquela história é editada, podemos ter um documentário completamente diferente.

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  5. Acho importante esse tipo de post porque ele nos ajuda a pensar uma construção narrativa baseada na funcionalidade dos elementos escolhidos. O roteiro não é fruto de um processo de colagem ou imitação de receitas de sucesso. Exemplo de narrativa ruim para mim é a de muitas pornô chanchadas e os filmes do tipo B de terror. Por quê são ruins? A primeira porque aposta execivamente no sexo como elemento para atrair o público a tal da história se diluir em tanto morbo. Muitos filmes apostam em sexo e violência para prender o público, mas isso não significa que a narrativa seja boa. E o filme de terror ruim joga com os elementos de uma maneira que ao invés de criar tensão e suspense causa riso. Ou seja, a forma comprometeu o conteúdo.

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