PEQUENOS DETALHES DA NARRATIVA QUE FAZEM TODA DIFERENÇA

Tempo de leitura: 4 minutos

A estrutura de um filme é constituída por meio de Atos, Sequências, Cenas e Beats. Um beat está submerso em uma camada mais profunda. É um elemento de estudo do storyteller. A equipe lê a cena, mas não lê o beat. Entender o beat é uma tarefa crucial do roteirista.

Mas afinal de contas… o que são (esses malditos!) beats? Vamos conversar sobre isso!

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Vamos ver uma cena escrita:


INT. CASA DE DIEGO – NOITE

DIEGO (35 anos) caminha de um lado para o outro. Liga a televisão. Olha o celular. Desliga a televisão. Acende um cigarro. Vai até a janela. Toma um copo d’água.

O TIC TAC do relógio ecoa pelo ambiente.

A porta da sala se abre. DIEGO para onde está. Respira fundo.

MARINA (25 anos) abre a porta. Está sorrindo. Entra e fecha a porta.

Larga a bolsa no sofá, se aproxima de DIEGO franze a sobrancelha. DIEGO treme. MARINA limpa uma gota de suor que escorre do rosto dele. Faz carinho em sua testa.

DIEGO dá um passo pra trás e enfia a mão em seu bolso.

MARINA observa. Fica mais séria.

DIEGO tira uma aliança do bolso. Se ajoelha.

MARINA sorri.


Um BEAT é a menor ação dentro de uma cena. Uma ação que leva a história adiante. Ele pode ser:

  • Um olhar de reprovação.
  • Uma mão estendida.
  • Um soco.
  • Uma frase dita por alguém.

Um beat pode ser apenas uma linha: DIEGO tira uma aliança do bolso”. Um beat gera uma reação: “MARINA sorri”.

Todo filme é construído a partir de beats que geram ação e reação.

O maior cuidado que você precisa ter na hora de escrever uma trama é justamente perceber que o seu BEAT pode ter muitas linhas de roteiro. Ou seja, se DIEGO está nervoso, isso pode ser mostrado por uma ação dele ou por várias.

Por exemplo: DIEGO (35 anos) caminha de um lado para o outro. Liga a televisão. Olha o celular. Desliga a televisão. Acende um cigarro. Vai até a janela. Toma um copo d’água.

Na frase acima,  a união de ações leva o espectador perceber que Diego está impaciente. Mas você consegue entender que o beat é o mesmo nas duas linhas apresentadas? É esse cuidado que você precisa ter ao escrever.

Sabe por quê?

Porque às vezes pode acontecer de você construir um diálogo de três páginas com o mesmo beat. É como se fosse uma enganação para o espectador. Você enrola, enrola, enrola, porque o diálogo é legal, mas ele é totalmente construído em cima da mesma ação.

Não é um problema haver um beat longo. O problema é você não saber disso ao construir uma cena.

Veja este exemplo.

Há uma dica de Robert McKee para descobrir o beat e trabalhar ele a favor de sua história: estude sua cena escrevendo no gerúndio.

Vamos analisar esta cena do link acima do belíssimo Mr. Nobody: o menino está observando. Esse é o beat dele durante toda a cena. O beat dele gera uma reação nela: ela fica encarando. Esses dois aspectos são os dois mais importantes da cena. O que vem no meio disso (a natação, a figuração, os mergulhos) é o enredo, o palco que o autor utiliza pra contar a história.

Então, cada linha que você escrever de seu roteiro, pergunte-se:

  • quais os beats dessa cena?
  • quais ações e reações ele gera?
  • como isso leva a história adiante?

Dessa forma, suas cenas e sequências constroem atos mais densos e mergulham o espectador na história.

Não tem coisa mais chata do que assistir a um filme onde nada acontece. A única coisa boa de assistir a um filme chato, onde nada acontece é estudá-lo para não cometer os mesmos problemas. Fora isso, o filme continua chato e sem nada acontecendo.

Se não há estudo dos beats, o filme está fadado à repetição, falta de profundidade e dificuldade de a história ser levada adiante.

E aí? Dúvidas? Comenta aí!

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