POR QUE É IMPORTANTE REVISAR E REESCREVER UM ROTEIRO

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Roteiro escrito. E agora?

Reescrever faz parte da construção de um roteiro. É um momento tão importante quanto pensar e escrever personagens, plot, cenas, pontos de virada, clímax, subtexto. A relevância da revisão é enorme, pois esse é um momento em que o roteirista consegue visualizar o resultado da obra como um todo e avaliar se há algum diálogo ou cena que não esteja funcionando tão bem, se o ritmo do roteiro está beneficiando ou prejudicando o desenvolvimento da história, se é preciso acrescentar alguma trama, adicionar ou retirar algum personagem. A reescrita permite que o roteirista possa lapidar o seu texto e torná-lo mais próximo do que pretende expressar. 

“A diferença do que se tem e do que se quer se reverte em contínuos gestos aproximativos”, destaca a pesquisadora Cecilia Almeida Salles no livro “Gesto Inacabado – Processo de Criação Artística”. Nem sempre aquilo que é materializado está traduzindo com exatidão o que o artista procura transmitir. Revela-se necessário, portanto, que se revisite o conteúdo criado, perceber o que precisa ser modificado para atingir uma versão da história que finalmente agrade ao roteirista (e o faça se sentir preparado e seguro o suficiente para levar essa história ao público).

Ter paciência é importante ao longo desse processo. É preciso ter muito cuidado para não se deixar levar pela ansiedade de concluir a obra logo. O processo criativo, muitas vezes, leva tempo. Pode ser muito profícuo escrever uma versão do roteiro e se afastar da obra por uns dias, algumas semanas. No momento em que você voltar àquele texto, uma nova visão sobre a história irá surgir. Esse olhar provavelmente será mais maduro, mas rico em referências. Talvez você perceba aspectos no roteiro que não estejam funcionando e que antes você não estava conseguindo notar. Tente ver o tempo como um aliado.

Chamamos de tratamento uma revisão do roteiro que modifique a sua estrutura. Revisar e modificar um diálogo que não altere o objetivo da cena ou a sensação que ela transmite não é exatamente fazer um tratamento no roteiro. Inserir uma trama nova ou criar novos pontos de virada (como, por exemplo, a morte de um personagem que, na versão anterior, não ia morrer) são algumas das formas de reestruturação da história que consistem na realização de um tratamento.

A revisão pode levar a história a um nível mais profundo, torná-la mais coesa. Sem dúvidas, é um processo saudável. Ideias novas podem surgir a qualquer instante e não há motivos para não testá-las e modificar a versão mais recente do roteiro. O único detalhe importante com que se deve ter cuidado é refletir se a realização do tratamento na narrativa está acontecendo porque o roteirista não conhece tão bem seus personagens, se as cenas e sequências não foram todas elaboradas com um objetivo consciente e bem fundamentado, se os acontecimentos não foram idealizados de forma que gerassem transformação e levassem a narrativa para frente. Nesse caso, é interessante lembrar que existe um processo anterior à escrita do roteiro, um momento para elaborar o conceito da história, seus personagens e o desenvolvimento de seus eventos (então, antes da revisão e reescrita, talvez seja necessário voltar algumas etapas e dedicar mais um tempo a essa fase da construção de uma história).

De acordo com Cecilia Almeida Salles, a criação é um processo de experimentação. Não há problema algum em testar novas versões do roteiro. Descrever de uma forma diferente o ambiente em que se passa a cena, modificar diálogos, suprimir ou inserir eventos, personagens, tramas. As possibilidades são inúmeras. Além disso, é muito importante entender que o processo criativo não precisa ser linear. Se as modificações realizadas não lhe agradaram, é possível retornar à versão anterior (por isso, é fundamental guardar tratamentos anteriores e rascunhos).

Reescrever é se dar a chance de criar uma história mais profunda, mais bem estruturada, colocar novos aprendizados, novas experiências e referências dentro do próprio trabalho. É se reinventar como artista, buscar novos caminhos. É tentar encontrar uma versão melhor do próprio trabalho e de si mesmo como roteirista. É como se aventurar em uma viagem e se jogar a novos rumos – e, se a direção que essas mudanças estão tomando não lhe agradam, sempre é possível voltar alguns passos para então buscar novas perspectivas, novas estradas que levem a uma boa história.                 

Ainda temos bastante coisa para falar sobre reescrita e revisão. Porém, gostaríamos de ouvir você, roteirista! Conte aqui nos comentários: com que frequência você revisa os seus roteiros?

 

2 Comentários


  1. Tudo que escrevo eu reviso, para ver se está tudo certinho, pontuações etc. E nessa revisão sempre vem algo que quero mudar e isso às vezes não gosto.

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