DIA NACIONAL DA VISIBILIDADE TRANS: ENTREVISTA COM ALLIAH

Tempo de leitura: 9 minutos

Hoje é dia 29 de janeiro: Dia Nacional da Visibilidade Trans. Embora a comunidade trans venha conquistando mais visibilidade na internet, no cinema e na TV, ainda são necessários muitos avanços.

Para falar sobre o assunto, entrevistamos Alliah/Vic, escritor, artista visual, pessoa trans não-binária bissexual. Há dez anos, Alliah vem publicando vários contos em coletâneas e sites. É autor do livro ilustrado de contos Metanfetaedro, publicado em 2012. Em 2015, escreveu em parceria com Jim Anotsu o Manifesto Irradiativo, por mais diversidade e inclusão na ficção fantástica brasileira. O manifesto deu frutos e fez brotar o evento Encontro Irradiativo, que aconteceu em São Paulo, no mesmo ano.

As pesquisas e criações literárias e artísticas de Alliah exploram questões de corpo, gênero, sexualidade e nossa relação com a tecnologia, a biosfera e os horrores ecológicos e cósmicos do weird. Também atua como leitor crítico de ficção e leitor sensível de personagens trans/não-binários e bissexuais. Em junho, Alliah irá ministrar uma oficina on-line sobre ficção trans e personagens trans.

Confira a entrevista com Alliah:

– Como você descreveria a representatividade da comunidade trans no cinema e na TV?

Alliah: Se estamos falando da TV e do cinema ocidentais feitos por pessoas cis nas últimas décadas, ainda é uma representação muito baixa, rasa e unidimensional, quando não é ofensiva e estereotipada, salvo raras exceções em obras recentes. Eu acho um absurdo, por exemplo, que ainda acontece de escolherem atores e atrizes cis para interpretarem personagens trans. E que profissionais envolvidos em obras que contam a história de personagens trans parecem não saber meia fagulha sobre o assunto, como a diretora de About Ray, que em entrevistas deixou clara a sua ignorância sobre a realidade de um menino trans, sequer sabendo o pronome correto a ser utilizado. Mas se por um lado a discussão parece se arrastar ou se consumir num oroboros de vergonhas, por outro há uma quantidade crescente e muito criativa de produções pequenas e independentes de pessoas trans escrevendo, atuando e dirigindo suas próprias histórias. Isso me deixa muito esperançoso e curioso para ver como essas obras irão servir de influência e referência para produções maiores e como a engrenagem da indústria vai girar para passar a apostar nessas narrativas com mais frequência e capital.

– A comunidade trans ainda sofre muito preconceito e exclusão. Você poderia falar sobre os impactos positivos que uma maior representatividade no cinema e na TV trazem para a comunidade trans?

Alliah: Uma arte que representa apenas uma parcela da população e ignora a existência de outros grupos é uma arte incompleta, desonesta e irreal. Ver-se incluído na cultura pop é importante na formação de pessoas que pertencem a minorias marginalizadas. Pode ser muito solitário e angustiante crescer sem reflexo, sentir-se uma peça deslocada que não se encaixa em lugar algum. Ou pior, perceber que a pouca representação que existe é um festival de horrores, como as inúmeras personagens travestis que (sub)existem apenas como criaturas efêmeras e só fazem sofrer abuso e morrer de maneira violenta. Com sorte, às vezes a pessoa trans se encontra e se reconhece num personagem bem escrito muito antes de conhecer outra pessoa que compartilha da sua identidade. E falo isso por experiência própria. Só fui conhecer outras pessoas não-binárias depois de eu mesmo ter me percebido e me entendido como tal através de vários processos de questionamento que passaram por obras de literatura e audiovisuais. Mas a representação deve ser feita com responsabilidade e cuidado. Para isso precisamos que uma gama diversa e extensa de experiências seja representada e normalizada. Ao contrário do que foi mostrado por muito tempo na TV e no cinema, pessoas trans não são um monólito, tampouco um punhado de estereótipos para servir de fetiche ou chacota. Somos muito diferentes como indivíduos – temos vários recortes e intersecções de classe, etnia, sexualidade – e todas essas vivências merecem representação.

– O que você diria sobre personagens trans e narrativas sobre pessoas trans que vêm surgindo na TV e no cinema recentemente?

Alliah: Sinto que estamos num momento proveitoso, no começo de uma efervescência e uma euforia muito gostosas. Nunca antes tivemos tanta visibilidade. Nunca antes estivemos tão presentes na cultura pop sem que fôssemos reduzidos a meras piadas ofensivas ou caricaturas hiper sexualizadas sem voz e sem agência. Mulheres trans, homens trans e pessoas não-binárias estão ganhando espaço em filmes, seriados e até novelas. Mas isso é uma faca de dois gumes. Porque muita gente cis encara esse progresso como moda e quer capitalizar em cima sem ter a menor noção do que está fazendo ou sem se preocupar mesmo. O avanço acontece a passos cruzados e às vezes dá uns tropeços e cai para atrás. Dentre as obras mais vistas há exemplos primorosos e louváveis como Sense 8 (com sua diversidade incrível não só de gêneros e sexualidades, mas expressões múltiplas e não-normativas desses gêneros e sexualidades) e One Day At A Time (que na segunda temporada conseguiu fazer piadas excelentes com a questão dos pronomes neutros e inseriu um personagem adolescente não-binário como interesse romântico com um desenvolvimento muito carinhoso e genuíno). Há exemplos horrendos como The Danish Girl e La Mante que perpetuam narrativas transmisóginas danosas e absurdas que fetichizam o corpo da mulher trans e a fazem de farsa. E há ainda exemplos de obras que juntam acertos maravilhosos e erros incômodos no mesmo balaio como Transparent e Orange Is The New Black. O cenário é mais animador e muito mais diverso nas obras menos conhecidas e em trabalhos independentes, principalmente aqueles criados por pessoas trans, como Her Story e Janaína Overdrive.

– Quais pessoas trans inspiraram você e o seu trabalho?

Alliah: Num primeiro momento de processar o que passava na minha cabeça quando eu estava dando meus primeiros passos após me assumir trans, a ficção fantástica, experimental, poética e íntima da autora Caitlín R. Kiernan me transformou profundamente, assim como a música agressiva e não-apologética de Laura Jane Grace, da banda Against Me!. Desde então, a lista de artistas e ativistas trans que admiro e acompanho é longa e sempre crescente: Angel Haze, Assucena Assucena e Raquel Virgínia, Zinnia Jones, Julia Serano, Mel Gonçalves, Laverne Cox, Laerte, Helena Vieira, Hailey Kaas, Paris Lees, Bogi Takács, Cheryl Morgan, Fox Fisher e Owl, Kat Blaque, Alex Gino, Meredith Russo, Janet Mock, são muitos nomes! E, claro, as amizades que fiz com outras pessoas trans através das redes sociais desde que comecei a falar publicamente sobre transgeneridade, são amizades muito queridas e muito acolhedoras que me inspiram e me dão força.

– Quais ações poderiam contribuir para haver maior representatividade da comunidade trans no cinema e na TV?

Alliah: Há uma preocupação muito focada com a criação de personagens trans e eu acho que essa luta é extremamente necessária e essencial, mas não podemos esquecer do resto da cadeia de produção. Precisamos de pessoas trans trabalhando em todas as etapas: escrevendo, editando, produzindo, dirigindo, atuando. Se a equipe inteira é formada por pessoas cis e a obra possui personagens trans, o mínimo que se pode fazer é contratar pessoas trans para dar consultorias e fazer algum tipo de parecer crítico sobre o material (na verdade, o mínimo seria contratar atores e atrizes trans para interpretar personagens trans). E para que essa inclusão aconteça, é necessário um esforço ativo e insistente da parte de quem possui o poder de fazer decisões e contratações. Há uma longa história de opressão, marginalização e exclusão que afasta as pessoas trans do mercado de trabalho. Muitas vezes encontrar talentos não convencionais requer métodos não convencionais. Requer iniciativas a longo prazo que apoiam e financiam projetos educativos e profissionalizantes desde cedo. É um trabalho múltiplo, coletivo, colaborativo. E quando a obra está pronta e chega ao público, é necessário expandir a conversa para além dos círculos especializados e dialogar com quem talvez nunca teve contato com uma pessoa trans na vida e está conhecendo uma pela primeira vez através daquele filme ou seriado. Daí a importância de se contar uma boa história que fará o personagem trans ser visto como uma pessoa como outra qualquer –  multidimensional, complicada, falha, vulnerável, familiar.

– O que você diria a uma pessoa trans que deseja trabalhar nas áreas de TV e cinema?

Alliah: Duas coisas para ter em mente. Primeiro para não se podar nas suas vontades criativas e não se conformar a criar algo que precise agradar ao olhar cis. Você não precisa deixar tudo mastigadinho ou cair num tom excessivamente educativo e pedagógico na sua narrativa sem que haja necessidade alguma para isso. O público cis que realize o trabalho de ir atrás daquilo que não sabe. E segundo para não se sentir pressionado a fazer um trabalho perfeito. Como a porcentagem de pessoas trans trabalhando na área ainda é muito pouca, quando alguém consegue um trabalho bacana, todos os holofotes recaem sobre a pessoa e junto vem uma responsabilidade colossal de representar a comunidade inteira de maneira autêntica, verdadeira, imaculada e sem deslizes–o que é impossível. Eu sei que é inevitável sentir essas responsabilidades. Temos plena noção de que um erro pequeno pode catapultar todo mundo de volta no tempo, em termos do poder que uma cena ou um personagem possuem de transformar, informar e guiar o discurso público sobre o tema. Mas é impossível agradar a todos e mesmo dentro da comunidade trans há milhares de opiniões divergentes sobre o que configura uma boa representação de tal personagem e de tal identidade. Faça boa arte dentro daquilo que você quer fazer. E então faça mais.

2 Comentários


  1. Olá! Esse assunto realmente é delicado. Até mesmo porque ainda tem muitas pessoas que não sabe a diferença entre, gay, trans, travesti e por vai. Mas conforme a entrevista, o espaço para mostrar a realidade da diversidade está cada vez aumentando, mas aos poucos. Ainda existe muito preconceito sobre os gays e trans etc, porque enquanto as pessoas não entenderem que cada um tem o direito de ser e escolher o que ser e quem amar, fica muito difícil. O que passa na mídia é só um pouquinho e olhe lá ainda, porque a realidade dessas pessoas não é nada fácil mas já ouve algum progresso. Nada melhor que saber sobre eles ou elas é conviver com os mesmos. Que por sinal são bem inteligentes, divertidos, carinhosos e amorosos.

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  2. Embora delicado, vejo que as midias tocam muito mais nesse assunto hoje do que no passado. Mesmo assim, os avanços na discussão da questão dos trans ainda não é suficiente para tira-los dessa situação de minoria e mostrar que eles são tão importantes para a sociedade quanto quem não é trans.Afinal, somos todos seres humanos!

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