FILMES DE BAIXO ORÇAMENTO: ENTREVISTA COM O DIRETOR E ROTEIRISTA FABIANO DE SOUZA

Tempo de leitura: 8 minutos

Já pensou em produzir um filme de baixo orçamento?

Aqui no Brasil, essa é a realidade de inúmeros projetos. Então, conversamos com o diretor e roteirista Fabiano de Souza, que nos contou sobre a sua experiência com filmes de baixo orçamento e também os conhecidos “filmes de guerrilha”. Fabiano é sócio da produtora Rainer Cine e editor da revista Teorema – Crítica de Cinema. Já realizou curtas-metragens, especiais para a TV e os longas-metragens “A Última Estrada da Praia” e “Nós Duas Descendo a Escada”.

Seguem aqui os principais trechos da entrevista com o cineasta Fabiano de Souza:

Escola de Roteiro: O que te levou a começar a fazer filmes de baixo orçamento?

Fabiano de Souza: Acho que em “Rastros de Verão”, um filme com uma equipe de três ou quatro pessoas mais o ator principal, eu acabei atuando também. É um filme que não tem imagens, perdemos a cópia, ainda agora tenho vontade de pelo menos achar algumas imagens em movimento do filme. Nesse filme, a equipe toda cabia dentro de um carro e foi muito bacana. A gente fez o filme com o nosso dinheiro e aí depois de certa forma a gente conseguiu finalizar o filme e o filme ganhou um prêmio. Era muito bacana porque, de certa maneira, a gente tinha uma maneira de produzir que dava muito prazer. Depois desse filme, fiz alguns curtas com edital, que foram curtas interessantes também, mas já não entra nessa guerrilha. O que acontece é que a gente vai chegando num momento “preciso fazer um longa, preciso fazer um longa, preciso fazer um longa”. Em determinados processos, o longa-metragem tava muito atrelado ao edital e a gente vinha tentando editais e não conseguindo. Aí rolou uma proposta pra fazer um episódio da série Escritores, da RBS TV, onde então a gente receberia um montante pra fazer o episódio e a gente começou a escrever o roteiro e disse “Isso dá um longa… e aí? Isso aqui dá um longa com a verba da RBS?”… “Não, talvez não dê com a verba da RBS, mas talvez não precise muito mais”. Claro, tinha uma verba, mas era uma verba destinada a um episódio de 26 minutos, e a gente pegou essa verba destinada ao episódio e fez um filme e o episódio. O episódio foi entregue logo depois da filmagem e o filme demorou três anos pra ficar pronto. No final, a gente tinha um edital pra finalizar o filme. Então foi um processo de, por um lado, guerrilha, porque, afinal de contas, é um longa que foi feito em 14 diárias, que não é um número exatamente grande, mas que foi feito com uma equipe de sei lá 14 pessoas e foi um rito de passagem muito bacana. Isso é 2007, então tu já tem tecnologias um pouco mais interessantes e que de, certa maneira, possibilitaram isso.

Confira o trailer do filme “A Última Estrada da Praia”:

Escola de Roteiro: Como você descreveria o seu processo criativo dentro de um projeto em que não teria muitos recursos?

Fabiano de Souza: No caso do “A Última Estrada da Praia”, era uma adaptação do “O Louco do Cati”, do Dyonelio Machado. Quando a gente começou a escrever o filme, a gente sabia que tinha um ponto que os dois iam caminhar sozinhos na praia e só um fala. Quase um monólogo. Isso, claro, é uma influência do “Gerry”, do Gus Van Sant, mas ao mesmo tempo tinha a ideia de saber que essa criação tinha que andar por ali, mas ao mesmo tempo daqui a pouco eles acham uma porta, então uma coisa que era super realista vira fantástica. O primeiro ato é quase todo dentro da rural, o segundo é quase todo na praia. Claro que tem a rural, aí vai na sorveteria, têm pontos de saída, mas seria mais ou menos isso, tudo que coubesse dentro dum carro e eles pudessem chegar e fazer sem botar muita luz. No caso do “Nós Duas Descendo a Escada”, o filme partiu de um dispositivo, que era fazer um filme durante nove meses, com uma equipe reduzida, sete pessoas mais o elenco, que também ajudava em tudo, a Carina Dias e a Miriã Possani. E a gente sabia que a gente ia filmar um fim de semana por mês e que aquilo ia ser mais ou menos os meses do relacionamento delas, então eu podia escrever tudo, mas que coubesse em duas diárias. O que foi muito impactante pra gente foi filmar aquela história muito na rua. Tanto que eu acho que as cenas que se passam na rua ou dentro de carro são mais interessantes do que aquela que tem que construir uma mise-en-scène em espaços internos, que muitas vezes tu tá ali precisando de mais tempo do que tu tem. Então, de certa maneira, às vezes te falta alguma coisa pelo tempo que tu tem. Lá o processo de criação era esse: primeiro ter uma espécie de… não era nem um argumento, era uma escaleta em que a história ia até o fim, eu já sabia que ia acabar com elas duas na escada quando a gente começou, mas a gente foi construindo isso. Aí, claro, também teve a construção da montagem, mas era uma ideia de sair daquele mês e… o que elas fariam no próximo? E pensar em como a relação tinha sido filmada, como de certa maneira isso poderia continuar e, claro, sabendo que não ia poder ter muitas coisas ali, embora a gente tenha feito, às vezes, diárias enormes, ainda bem, com a equipe colaborando. Mas, ao mesmo tempo, quando acabava o domingo nos dava uma felicidade imensa. Conseguimos não só cumprir, mas conseguimos ficar juntos, fazer cinema.

Abaixo, você pode assistir ao trailer do filme “Nós Duas Descendo a Escada”:

Escola de Roteiro: O baixo orçamento atrapalhou o teu processo criativo de alguma forma?

Fabiano de Souza: Por exemplo, em “Nós Duas Descendo a Escada”, a gente no começo tinha planejado ver muito o material antes de filmar outra vez, só que o montador acabou virando produtor do filme, então como eu ia ver (o material) se o cara tava produzindo o filme? Se a gente tivesse um outro cuidado, a gente poderia talvez ter alguns cuidados estéticos que talvez não tenha sido possível naquele instante. Então, acho que a pior coisa que tem é o cara dizer assim… faz filme de baixo orçamento e por um acaso o cara diz “não precisa de dinheiro pra fazer cinema”. Todo o mundo precisa. Agora, têm momentos da tua vida que aquilo se faz urgente e os preços que tu vai pagar por ter essa questão reduzida te parecem menores que não fazer. Algumas vezes, isso te propicia determinadas qualidades que talvez tu não tivesse com mais dinheiro. Ao mesmo tempo, isso não é uma bandeira, eu acho que é uma necessidade.

Escola de Roteiro: E, às vezes, um alto orçamento não quer dizer que o filme será bom…

Fabiano de Souza: O cinema é uma coisa, pra mim, tão abstrata que não tem regra. Tu imagina que quanto mais tu preparar, vai sair melhor, mas tu imagina. Às vezes, tu prepara menos e sai melhor. Às vezes tu prepara um monte e sai pior. Existem tendências. A tendência é quanto tu preparar mais, melhor – mas é tendência.

Escola de Roteiro: O que você diria a um roteirista que pretende começar e precisa fazer roteiros de baixo orçamento?

Fabiano de Souza: Para um roteirista e diretor, eu ia dizer: faça. Dê um jeito e faça, porque sempre é importante pra tu não ficar parado. Quando eu fiz o “Nós Duas Descendo a Escada”, eu conheci pessoas maravilhosas que se tornaram muito próximas, eu vivi com elas na filmagem na minha casa. Quando acabou a filmagem, dois meses depois a minha filha nasceu. Claro que tem o filme também, mas foi uma coisa duma experiência. Se o cara é roteirista somente, ele tem que arrumar uma parceria. Como o Belmonte sempre dizia, sem um pouquinho de responsabilidade, as coisas não saem. Externa à noite provavelmente tu vai ter que iluminar. Tudo que tu escreve custa, mesmo que tu não pague, mas custa. Tu tem que saber quanto custa, quanto custa pra se fazer bem feito, quanto custa pra não fazer tão bem feito, quanto custa como tu pode fazer. É o que eu digo com o “Nós Duas Descendo a Escada”, o filme foi feito com a equipe trabalhando coletivamente, mas eu sabia que a gente precisava comer de maneira interessante. Eu não vou estar fazendo um filme praticamente não pagando as pessoas e a gente comer mal. Não vejo o roteirista e o diretor num filme de baixo orçamento não sendo produtores. Nem que eles não sejam lá o que tá escrito “produtor”, mas eles são alguém que vai ter que estar envolvido com isso.   

E você tem alguma experiência com filmes de baixo orçamento? Tem alguma dúvida? Deixe aqui nos comentários!

*Texto e entrevista por João Paulo Wandscheer

3 Comentários


  1. Sensacional!!! Parabéns aos envolvidos..
    Eu tive uma experiência de gravar um curta bem curta mesmo rs com uns amigos que éramos coletivamente de tudo um pouco..
    Levamos diiiiias pra gravar algo em torno de 7 minutos de material válido. .
    E tudo era na luta, câmera emprestada, rateio pro lanche, boa vontade dos “atores” e dos que liberariam o local pra gravarmos e Etc..
    Mas salvaram se todos..
    E até o momento não finalizamos por não termos um programa de edição ou dinheiro pra pagar alguém rs é punk!

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  2. Marcelo, valeu, valeu saber da batalha do Fabiano. E pelos trechos que vi, me parece que os filmes são muito interessantes, despertaram vontade de vê-los. Quem sabe, algum dia… Grande abraço.

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  3. Na minha ignorância, de quem nunca fez uma filmagem, mas que flerta com essa ideia, penso que o argumento e o público-alvo sejam básicos para se controlar o custo e que a arte está mais no argumento do que no cenário, na montagem. Estes são mais exigido para diversão, para um público genérico, para fazer caixa.
    Sem desprezar este último aspecto, vejo um caminho até ele, passando pela arte para baixar o custo inicial da meta, aumentando-o, gradualmente, com o sucesso obtido a cada nova produção, a cada conquista.
    A guerra é feita de batalhas.

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