MULHERES ROTEIRISTAS: ENTREVISTA COM ELEONORA LONER

Tempo de leitura: 8 minutos

Como está o cenário audiovisual para as mulheres que pretendem seguir a carreira de roteirista?

Quem nos conta é a roteirista Eleonora Loner, graduada pelo curso regular da EICTV (Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de los Baños, Cuba), na especialidade de Roteiro, e pelo curso de Cinema e Animação da UFPel. É ministrante e idealizadora da “Criativas – Oficina Básica de Roteiro Audiovisual para Mulheres”. Participou da equipe de roteiristas das séries “O Ninho” e “Sacoleiros S.A”, com filmagens previstas para 2018. Seu roteiro de longa-metragem Matrioshkas ganhou menção honrosa no Prêmio de Roteiro Cabíria. Atualmente, ministra um laboratório de roteiro só para mulheres e dá aulas no curso de Cinema da UFPel.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista com Eleonora Loner:

– Como você descreveria o contexto das mulheres dentro do mercado de roteiristas?

Eleonora Loner: O GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa) analisou os filmes brasileiros de maior bilheteria entre 2002 e 2012 sob o viés de gênero e raça (o infográfico com os resultados pode ser encontrado aqui) . Em um país em que 51% da população é feminina (sendo 27% mulheres negras e 24% brancas), apenas 26% das roteiristas destes filmes eram mulheres. Nenhuma dessas roteiristas era negra. Essas estatísticas se agravam ainda mais se passarmos para a área da direção.

Então temos posições chave de criação no cinema e elas são historicamente ocupadas por homens brancos heterossexuais. Isso vai se refletir também na representação, no que vemos em tela. Boa parte dos protagonistas são homens, brancos, heterossexuais, de classe média. Além disso, boa parte das personagens femininas são estereotipadas. É muito mais provável que uma personagem mulher seja sexualizada ou seja colocada como indefesa, como alguém que precisa ser salva (por um homem). Se é uma mulher negra, ela possivelmente vai ser ainda mais sexualizada, em uma posição subalterna. A mesma coisa com os homens negros, que vão ser associados à violência, ao tráfico. É uma indústria dominada por homens brancos heterossexuais. Isso influencia no que será produzido e no que eventualmente veremos nas telas. Não tem como fingir que não.

No cinema e nas artes em geral, é difícil se manter. É difícil levar isso como profissão. A falta de estímulo começa desde cedo: não vendo mulheres roteiristas, menos meninas sentem que é uma possibilidade. Aí nos deparamos com questões econômicas: uma faculdade de cinema particular é cara. Para entrar em uma pública, há muita concorrência e sabemos que tempo para se dedicar aos estudos é um privilégio que muitos não têm. Além disso, a carreira em audiovisual não costuma trazer retornos financeiros imediatos e boa parte da população não tem possibilidades de se dedicar a um estágio não-remunerado ou de se dedicar inteiramente aos estudos. Assim, cada vez cortamos mais pessoas no caminho.

Mais adiante, já dentro do mercado, encontramos mulheres se esforçando o triplo simplesmente para conseguirem fazer seu trabalho. Quando finalmente ocupam posições de criação, são constantemente questionadas e precisam, além de se concentrar em suas funções, provar que estão aptas para o trabalho. É esgotante e redutor criativamente.

Acabamos de passar por explosões de denúncias de abuso moral e sexual não só em Hollywood (que são as que acabam recebendo mais atenção na mídia), mas no Brasil e em diversos países. Denúncias que, felizmente, estão vindo à tona. Mas quantos outros casos existem por aí e não são revelados? Se famosas atrizes já se colocam em risco ao expor poderosos nomes do cinema, o que podemos dizer de outras mulheres em posição de menos destaque? Indo mais adiante no processo, os festivais de cinema, os editais de produção, historicamente, selecionam e premiam filmes de homens brancos heterossexuais. Com certeza temos algumas exceções, mas é isso, não passam de exceções.

Então temos uma estrutura (bastante resumida nesta resposta) que, em todos seus níveis, dificulta o acesso de mulheres. Acredito que, nos últimos anos, se tem avançado bastante, especialmente na discussão. Mas tudo isso está acontecendo pelo trabalho incansável e pela luta de muitas mulheres. E as pequenas conquistas ainda não são suficientes e é preciso seguir ainda por muitos anos para que as coisas de fato mudem.

– O que você diria sobre a representação das personagens femininas no cinema e na TV? Têm ocorrido mudanças?

Eleonora Loner: Existem vários estudos sobre quais são os principais estereótipos utilizados na representação de mulheres. Pessoalmente, um dos que mais me incomoda é o da mulher vítima de estupro. Me incomoda especialmente pela crueldade dele e pela facilidade que o encontramos. Já estive em mais de uma reunião de roteiristas em que, ao não saber o que fazer com uma personagem mulher, se sugeria que ocorresse um estupro. O estupro nos filmes, muitas vezes, acaba sendo uma saída fácil de roteiro para elevar a tensão dramática. Mas, além de uma saída preguiçosa, pode ser também altamente nociva para as espectadoras, mulheres que, desde criança, vêem imagens de violência sexual nos filmes e programas televisivos. Imagens que, muitas vezes, são estetizadas, que mais parecem querer gerar uma espécie de prazer sexual. Não estou dizendo que não pode ter representação de estupro (inclusive, em um país onde a cada 11 minutos ocorre um estupro, é necessário que falemos disso!), mas é preciso muito cuidado, principalmente se o escritor é homem, que não vive com esse perigo constante. Para mulheres, é um perigo real em suas vidas. Que podemos enfatizar nas produções audiovisuais ou não. Afinal, temos responsabilidade social ao fazer um filme e, querendo ou não, podemos reforçar a cultura do estupro através deles. E isso precisa ser debatido, tanto o estupro em si como a representação dele. Vamos colocar as mulheres só como indefesas? Só como vítimas? Qualquer “desvio de caráter” delas vai ser explicado com um trauma? O estupro vai ser uma punição para uma personagem “má”? Isso cria uma representação muito nociva para todas as mulheres.

Mas acredito que, sim, têm ocorrido mudanças. Também acredito que é preciso estarmos vigilantes, para que essas mudanças de fato se estabeleçam e mantenham. Como disse, há cada vez mais discussão em torno desses temas. Isso é ótimo, porém não pode parar aí. E, acredito, que não está parando. Há mais mulheres escrevendo e isso se reflete na representação que vemos nas telas. Isso muda a maneira como as pessoas que historicamente sempre ficaram de fora das produções, conseguem finalmente se enxergar, finalmente se relacionar com uma história contada.

– O que você falaria para uma mulher que pretende seguir a carreira de roteirista?

Eleonora Loner: Olha, acho que a única coisa que eu, uma roteirista também iniciante, poderia dizer é para elas não esperarem tanto para se dizerem roteiristas. Vejo mulheres que escrevem super bem e que têm muito interesse, que estudam, que têm uma voz interessante. Talvez falte trabalho, falte estudar mais, falte desenvolver a sua própria voz, mas elas têm tudo para começar a carreira e não conseguem se dizer roteiristas. Parece que elas precisam de uma validação muito maior, porque existe uma cobrança interna e externa muito grande. E uma coisa que, dando cursos de roteiro para mulheres, fica cada vez mais clara: se juntar às suas faz toda a diferença. Se geram laços, conexões, questões em comum que, de outra maneira, não seriam criados. Isso vai repercutir nas coisas que vão ser escritas depois e isso vai fortalecer a todas as envolvidas.

– Quais ações poderiam ajudar as mulheres a conquistar mais espaço dentro do mercado de roteiristas?

Eleonora Loner: A Francine Barbosa resumiu em um post de Facebook as discussões que estão acontecendo sobre algumas das medidas a serem tomadas para começarmos a mudar estruturalmente esse mercado e eu estou de acordo: paridade de gênero e raça nas comissões de seleção e curadoria, estímulo para estudantes mulheres, políticas públicas de financiamento, atividades de formação, entre outras. Além disso, é sempre importante dizer: é preciso dar visibilidade para as mulheres que já estão, apesar de todos fatores que falei antes, produzindo. É preciso ver filmes escritos, dirigidos, fotografados, produzidos, sonorizados, montados, protagonizados por mulheres.

6 Comentários


  1. Olá! Concordo com tudo que a Eleonora disse. Mas também ressalto que nós, as próprias mulheres precisam parar de aceitar esse título que nos colocaram lá atras em tempos antigos. Hoje estamos em uma época que as pessoas PRECISAM PARAR de titular as mulheres e outras coisas e pessoas que “ACREDITAM” não estar nos “PADRÕES” da sociedade. O respeito precisa existir para com tudo e em tudo. E estou feliz em estar começando essa nova etapa de roteirista e espero não decepciona-los. A partir do momento que muda a visão a história também muda.

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  2. Sem dúvida existem muitas mulheres com talento dentro do Audiovisual. A diretora Americana Patty Jenkins responsável por dirigir o filme “Mulher-Maravilha” é um exemplo.

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  3. Amei a entrevista com Eleonora Loner. Como me reconheço nessa entrevista, já que além de mulher, sou negra e estou tendo a primeira possibilidade de fazer o curso só agora que passei de 40 anos, embora o desejo de escrever roteiros tenha despertado na adolescência. Fico feliz com as mudanças que começam a ocorrer e esperançosa de fazer parte desse cenário.

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  4. Cadê as mulheres negras, roteiristas com financiamento para trazer questões que fazem parte de suas vivências, de suas experiências e da maior população negra fora de África, que é a brasileira? Elas existem e são super talentosas, mas o mundo do cinema é majoritariamente branco e masculino. O cinema é uma das minhas grandes paixões. A outra é a minha profissão como antropóloga. Desde adolescência assisto filmes semanalmente. Eu tenho 49 anos e lanço mão do cinema como ferramenta em sala de aula como professora e feminista negra. Tenho um filho de 18 anos que o criei levando ao cinema sempre para trazer temas de diversas ordens para o nosso diálogo, para as nossas vidas. E muitos desses temas estavam ali à espreita, e outros nos trouxeram subsídios para debater outras questões muito presentes no seu, no nosso cotidiano. O cinema abre possibilidades para pensar o mundo e vice versa-sem dicotomias, sem binarismos; relacionalmente. Mas ainda um mundo marcado por homens brancos, tendo a heteronormatividade como modelo, baseado em valores que excluem leituras de mundo fruto de mentes descolonizadas que é um processo constante e contínuo. Ser roteirista também ( acredito eu) é um ato político! E estou começando o curso GPR para potencializar a minha criatividade e meus esboços “da mulher que sonha em trabalhar escrevendo roteiros”, e de que diante de milhares de filmes que assisti semanalmente por décadas ministrei para a pós-graduação de Sociologia e Antropologia em uma universidade pública que trabalho como docente uma disciplina chamada Leituras de Gênero e Cinema. Acredito que ser roteirista faz parte de nossas experiências, dos muitos filmes, documentários e de outros formatos que devemos assistir incessantemente, de histórias que ouvimos, dos livros que estudamos que servem de material criativo. E a experiência interseccional? Lembrei das diretoras como Ava Duvernay que dirigiu o filme Selma que foi pouco aclamada pelo seu estrondoso talento. A indicação ao Oscar não era suficiente porque ela foi a melhor naquele ano. Mulheres fazendo cinema trazem outras narrativas sob outras leituras que viabilizariam perspectivas (também) interseccionais: gênero, raça, classe, geração, sexualidade, de origem e lugar…. Gostei muito da entrevista e do debate sugerido aqui no post. Vamos durante o curso viabilizar um debate mais aprofundado sob perspectivas interseccionais no mundo do cinema? Eu amaria. Obrigada.

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    1. Ótimo a entrevista com Leonora!!e ótimo também as respostas incluso e especialmente essa acima-da Monica Conrado!!sucesso,persist~encia a todos(e todas!),abs ari candido Fernandes

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