ROTEIRISTA E PRODUTOR: ENTREVISTA COM TOMÁS FLECK

Tempo de leitura: 9 minutos

Você sabia que as áreas de roteiro e produção podem andar lado a lado?

Uma pode ajudar a outra na viabilização de uma ideia. Um roteirista também pode ser o produtor de um mesmo projeto – o que se revela muito prolífico para a uma história. Quem nos conta sobre isso é o diretor, roteirista e produtor Tomás Fleck.

Tomás já escreveu séries, curtas e longas-metragens. Foto: Danilo Christidis

Tomás é sócio da Verte Filmes e atua como co-diretor, co-criador, co-roteirista e produtor do seriado de ficção “Necrópolis’. É diretor assistente e co-roteirista na série “Alce & Alice”. Os pilotos das duas séries foram selecionados para a mostra competitiva de pilotos do Festival Internacional de Televisão do Rio de Janeiro em 2013 (Alce e Alice) e 2014 (Necrópolis). É co-criador e roteirista do seriado “O Complexo”, contemplado na chamada pública do CineBrasilTV para a produção de 6 episódios de uma hora.

Tomás também é co-roteirista dos seriados “Werner e os Mortos”, vencedor do Festival Internacional de Televisão do Rio de Janeiro FITV 2013 na categoria de melhor piloto de ficção; “Avestruz de Férias” e “Bocheiros”. É criador, roteirista e produtor executivo da série “Horizonte B” (atualmente disponível na Netflix). Sua experiência também passa pelo cinema. Já roteirizou curtas-metragens e é roteirista e produtor executivo do longa-metragem “De que arte se ocupam as pessoas mortas”, que estreia em 2018. Além disso, atuou como produtor no FRAPA – Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre, primeiro festival focado em roteiro na América Latina.

Ele nos contou como foi sua trajetória e dividiu um pouco da sua experiência. Confira abaixo os principais trechos da entrevista com Tomás Fleck:

– Como você começou a trabalhar com roteiro? Quais foram os seus primeiros passos?

Tomás Fleck: Eu me formei em Propaganda e sempre quis escrever sem ter o intuito de venda. Acabo fazendo isso hoje porque tu tem que vender teus projetos, mas o cerne do que tu busca não ser vender um produto, não ser vender um carro, não ser vender um móvel, ser vender uma ideia que seja vinda de algum tipo de sentimento. Tinha essa coisa na minha cabeça, mas eu achava que era impossível. Em 2012, quando eu tava trabalhando em uma agência, um colega falou sobre uma produtora chamada Coelho Voador que era de roteiro, e que o cara vivia de roteiro. Bem nessa época, estava tendo uma espécie de curso/laboratório de roteiro. Continuei trabalhando com propaganda, mas fui fazer esse teste, daí comecei a escrever um longa-metragem. Eu nem sabia escrever, nunca tinha lido um livro de roteiro, nunca tinha estudado, nunca tinha feito nada, só comecei a escrever e ver o que que dava, ver como eu me sentia. Teve uma relação muito forte com a escrita, com a própria pessoalidade da escrita, diferente das propagandas que eu fazia e pensei: eu quero isso! Fui procurar um curso. Consegui uma bolsa nos Estados Unidos pra estudar Cinema.. Fui pra lá, passei dois meses, achei muito ruim e voltei. Voltei com muita certeza do que eu queria, mais do que antes. Comecei a me reunir toda semana com amigos, e a gente começou a desenvolver histórias juntos com o intuito de viabilizar alguma. A maior angústia era ver se era possível. A gente conseguiu viabilizar no final de 2012 uma primeira série nossa, Bocheiros. A partir dali, eu comecei a ir muito atrás de editais e entender como viabilizar. Em paralelo, comecei a estudar por mim. Um ano depois, roteirizei dois curtas, esses dois curtas foram pra festivais. Fui muito atrás. Em 2013, no final do ano, conheci meu sócio, que já tinha um produtora, a Verte. Fizemos um piloto de série juntos, eles já tinham feito outros pilotos antes de mim, a partir dessa parceria desse piloto que a gente fez, cresceu muito a parceria e a gente virou sócio. A partir dali, só deslanchou.       

– Como foi estudar sozinho?

Tomás Fleck: O primeiro passo foi esse curso na Coelho Voador. Foi muito aprendendo com a crítica do outro. A gente fazia tudo em grupo, cada um criando sua própria história, a gente dava pro outro ler, o outro lia. A gente falava as nossas ideias. Foi muito baseado como o outro critica, como o outro vê, como o outro questiona, então fui moldando as minhas primeiras ideias com base no que outros roteiristas achavam, alguns mais experientes, outros menos. Ali foi meu primeiro passo pra entender alguns conceitos básicos. Nesse meio tempo, comprei livros. Comecei a ver, ler entrevista com roteiristas, muita mesa redonda, vendo quais são os problemas deles, comecei a me identificar cada vez mais com os problemas deles, o que me levava a crer que eu tava no caminho caminho certo de alguma forma. Comecei a ler reportagem, assistir muita coisa, ler literatura. Não busquei referência de série em série. Busquei referências em livros, peças, formas de criatividades diferentes. No início, busquei filmes e séries, mas quanto mais eu encontrava mais outras linguagens de expressão, mais eu via que crescia o meu trabalho, além de desestabilizar vícios e cópia. Quanto mais tu vê uma coisa que tu gosta, mais tu quer fazer essa coisa. Foi importante pra achar a própria voz.       

– Quais são os dilemas de um roteirista?

Tomás Fleck: Todos falam que estão se enganando o tempo inteiro, que estão enganando todo o mundo, que eles são incapazes de contar uma história. Olhar pra uma página em branco e não saber pra onde ir. Terminar uma história, reler ela e ver que ela é horrível. Fazer oito episódios de uma série e, ao ler, quatro episódios não fazem sentido de estar ali.    

– Como contornar esses desafios?

Tomás Fleck: Tem que ter muito desapego. Tem que saber que pra construir, tem que desconstruir. Tem que te quebrar, tem que sofrer muito, mas depois tu te reergue. Vai ser muito difícil. Às vezes, a solução é sentar e ficar muito tempo ali, ficar todo o tempo do mundo ali, não fazer mais nada.

– Você também é produtor dos seus projetos. Como você sentiu a necessidade de escrever e produzir?

Tomás Fleck: Logo depois dos meus três primeiros projetos. Fiquei sentindo falta de várias coisas que eu propus e que caíram. Eu queria participar dessas decisões, do que cai ou que fica. O roteirista depois que entrega uma coisa nas mãos de um produtor ou diretor, o trabalho dele tá feito, e eu não queria que o meu trabalho estivesse feito. Eu vi na produção executiva uma forma de me manter como uma voz.

– Como você começou a entender de orçamento?

Tomás Fleck: Muito por frustração. Eu vi que fazendo editais regionais, editais nacionais, eu precisaria aprender uma lição muito difícil que é contar a mesma coisa de um jeito muito barato. Deu trabalho triplo. Tu não vai contar naturalmente a história como tu contaria, mas, às vezes, por te ver nessa encruzilhada, tu acaba achando saídas mais únicas pra série. O desafio de sintetizar sempre foi muito prolífero no quesito criativo. Isso foi um grande aprendizado. Por que eu tenho que contar com tantas cenas uma coisa que eu posso contar com uma? Se perguntar muita coisa. Entendendo de orçamento e do que eu posso fazer ou não, eu pude ser a própria pessoa que me corta como executivo e como roteirista e vice-versa.   

– Quais são as características que um roteirista precisa ter para conciliar o trabalho criativo com o trabalho de produção?

Tomás Fleck: A produção anda muito mais ao lado com o roteiro quando tu precisa vender. No momento que tu sabe o que tu quer fazer com essa história, ninguém melhor que tu pra defender essa história. E tu precisa vender ela, senão tu não vai fazer. Tu tem que aprender a defender a tua ideia pra ti mesmo e saber o que tu tá fazendo. Quando tu sabe muito bem isso e sabe o sentido daquilo existir, tu consegue muito bem defender pra qualquer pessoa. Vem muito da confiança que a pessoa tem do próprio projeto. Saber para onde tu tá fazendo. O início da ideia tem que ser desprendido de qualquer pensamento executivo. Depois que tu entende o que tu busca com a ideia, o que tu quer fazer, tu pode transformar ela. Entender muito formato. Por que é uma série? Por que não é um filme? Por que é uma coisa que tu quer mostrar com vários episódios? Essas são perguntas que um roteirista recebe de um executivo e ele tem que receber de si mesmo. Quanto mais conhecimento o roteirista tenha do mercado, mais ele vai saber responder essas perguntas pra si mesmo.     

– Como você descreveria o mercado para os roteiristas atualmente?

Tomás Fleck: O Fundo Setorial é um projeto muito incrível que tá permitindo viabilizar muita coisa. A Lei da TV Paga é uma dádiva pra quem trabalha com TV. Todo ano tem um financiamento. Tá dando pra viver disso, que é uma coisa muito incrível poder viver de escrever e criar. Têm desafios sempre. É uma luta. É resultado de luta o que tá acontecendo. É importante se manter atento a isso.

– O que você aprendeu com os seus projetos?

Tomás Fleck: Ser menos egocêntrico. Falar menos com o meu ego. Em cada projeto, eu aprendo isso de novo. Eu espero que, a cada projeto, isso tenha diminuído, mas é o que eu aprendo em todo projeto. Diminuir o ego.

– O que você diria a um roteirista que está começando?

Tomás Fleck: É isso o que tu quer mesmo? Vai ser muito difícil. Pensa bem se é isso o que tu quer. Se é isso o que tu quer, pensa por que tu quer isso. Se todas as respostas forem positivas pra ti mesmo, vai ser horrível e incrível ao mesmo tempo.

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