COMO A FUNÇÃO DE UM PERSONAGEM PODE INFLUENCIAR A FUNÇÃO DE OUTRO PERSONAGEM?

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Construir a história de um personagem não se limita a pensar sobre o que ele deseja, quais seus obstáculos, seu passado, personalidade e características físicas. Também é preciso levar em consideração as pessoas que estão envolvidas na vida desse personagem: amigos, familiares, interesses amorosos, colegas de trabalho, de escola, faculdade etc. Dentro de uma narrativa, todas essas pessoas não são meras peças que preenchem a história do personagem e sim fazem parte de uma proposta, elas têm um motivo para existirem e serem criadas.

No livro “Dramaturgia – A construção do personagem”, Renata Pallottini traz teorias do filósofo francês Étienne Souriau para explanar sobre a influência que um personagem tem sobre outro. E como Souriau explica essa relação de coexistência dentro de uma história? Utilizando os astros.

Pense no universo. Ele é imenso, infinito. Essa deve ser justamente a dimensão do universo de uma história. O que acontece é que o autor escolhe contar o que ocorre em um pedaço desse universo. Renata Pallotini comenta que o conjunto de personagens formaria – portanto – uma constelação, na qual cada astro tem a sua localização, força, tamanho, luminosidade e poder de atração e repulsão sobre outros.  

Compreendendo o personagem como um astro dentro de um centro estelar, Renata Pallotini destaca que, dessa forma, o personagem não está isolado, deixa de ser um só. Roteiristas devem estar atentos a isso ao elaborar a caracterização de seus personagens, pois cada personagem carrega uma marca, e a relação de um personagem com outro pode ajudar a determinar e a revelar que marca é essa.

Podemos utilizar como exemplo a amizade entre Shrek e Burro. Shrek é um personagem que inicia a história sendo alguém que gosta de ficar sozinho, é ranzinza e impaciente. Já Burro é alegre, falante e um leal companheiro. As cenas que mostram os dois conversando ou brigando colocam em evidência não apenas o contraste entre os dois, mas também as características de cada um. E o que traz essas revelações à tona? A ação.

Já falamos aqui no blog também sobre a série norte-americana Gilmore Girls (cujo roteiro vale muito a pena ser analisado), que também é um ótimo exemplo.  A série conta a história de Lorelai, que engravidou aos 16 anos e saiu de casa, buscando viver e cuidar da filha sozinha. Lorelai tem uma relação muito complicada com seus pais, que queriam que ela se casasse, fosse rica e tivesse um estilo de vida semelhante ao deles.

Enquanto Lorelai simboliza a liberdade, independência e um desprendimento de valores tradicionais, seus pais significam o conservadorismo, a rigidez de conceitos. Essas marcas ficam muito evidentes quando os personagens estão brigando, em conflito. Ou seja, os personagens se revelam por estarem em conjunto, a função de cada um dentro da narrativa pode ser compreendida por causa da função do outro.

Compreender a correlação entre os personagens e as forças (contrárias ou não) entre eles dentro de uma história pode auxiliar um roteirista não apenas a aprofundar um personagem, mas também a encontrar caminhos para revelá-lo. É fundamental, então, definir muito bem as características dos personagens e quais forças eles irão exercer dentro da ação – o significado que carregam dentro de uma narrativa.

E aí já pensou como as funções dos seus personagens podem influenciar as dos outros?

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