UM FILME PRECISA SER IGUAL A VIDA?

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Afinal, um filme precisa ser igual a vida real para ter graça? Essa pergunta aparece de várias maneiras em nossas cabeças. Primeiramente, como uma quebra de regra da realidade. Não entendeu? Eu explico. Existe uma coisa chamada suspensão da descrença, é um artificio que seu cérebro usa para fazer você acreditar no que está vendo quando vai ao cinema ou para imaginar quando lê um livro.

A suspensão da descrença praticamente não tem limites, é só pensar em filmes como O Senhor dos Anéis, por exemplo, ou qualquer animação e você vai perceber que o nosso cérebro sabe muito bem fazer com que nós entremos em uma história por mais surreal que ela seja.

Mas qual é o problema então?

Quando ouvimos alguém dizendo “até parece que isso aconteceria”, dificilmente isso irá se tratar de algo mágico ou fantasioso dentro do filme. O que acontece, é que a suspensão da descrença funciona até determinado ponto. Se você está escrevendo um filme sobre dinossauros, você precisa estabelecer desde o início que se trata de dinossauros, se no meio do segundo ato, alienígenas aparecerem, o público não vai comprar a ideia, ainda mais quando isso aparecer para explicar um fato ocorrido anteriormente. Então lembre-se dessa dica: Estabeleça as regras no início da história. E depois disso, não as traia, ou o público também irá se sentir traído.

Ok, ok, mas o que isso tem a ver com a vida real?

Vamos lá. Usei exemplos grandes para esclarecer o tema, mas existem muitos filmes (e eu diria até que é a grande maioria) que se passam em um universo emulando o nosso, muitas vezes com cidades e pessoas reais. O que nos leva a novas regras. E o que nos leva a outro problema: Até que ponto as pessoas irão acreditar quando se trata de uma história biográfica?

Primeiramente, precisamos falar que há algo além da suspensão da descrença quando se trata de uma história real. Escrevemos partindo do pressuposto que muitos já conhecem essa história e agora iremos transformá-la em filme. Mas já pensou se um filme fosse 100% exatamente o que foi a vida real da pessoa? Não daria certo.

Nesse ponto, existem dois fatores em jogo: A vida real, a história real de uma pessoa e a vida dramática, que é a vida dessa pessoa transformada em história para a tela. Funciona mais ou menos assim, a vida real é o material que você tem para montar o jogo e a vida dramática é o próprio jogo. Mas, em alguns momentos, a história vai pedir algo que a vida real não vai conseguir oferecer. Para esses casos, a saída é não trair as regras estabelecidas no começo da história, além do fato de que o público também sabe sobre essa história. Não dá pra inventar um personagem inexistente para explicar um erro na vida de seu protagonista, mas você pode fazer com que esse erro seja mais ou menos grave para entendermos suas consequências no futuro. Escrever sobre histórias reais é ter um balanço entre a necessidade dramática da história e a história real. Um bom filme consegue unir as duas coisas. Inventar demais ou deixar de lado a história para expor fatos apenas porque aconteceram acaba enfraquecendo sua narrativa.

A suspensão da descrença, então, pode acontecer em diversos níveis. Mas a lição dada aqui nesse texto é sobre não trair a história que você prometeu trazer, seja ela real ou fantasiosa.

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